Jesus - sua terra, seu povo e sua história

 

Quem é Jesus para mim? Quem é Jesus para nós?

O que dizemos nós, hoje, a respeito de Jesus de Nazaré? É uma resposta difícil, mas que deve ser dada num determinado momento de nossas vidas. Afinal, o ponto central de nossa fé é a pessoa e a prática deste "Jesus, filho de José de Nazaré". (Jo 1,45) (Filipe encontrou Natanael e lhe disse: “Achamos aquele sobre quem Moisés escreveu na Lei, e a respeito de quem os profetas também escreveram: Jesus de Nazaré, filho de José).

Este era o nome dele, quando andava pelas estradas empoeiradas da Palestina, durante "o décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo governador Pôncio Pilatos..."(Lc 3,1-2). ( No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia; Herodes, tetrarca da Galiléia;  seu irmão Filipe, tetrarca da Ituréia e Traconites; e Lisânias, tetrarca de Abilene; Anãs e Caifás exerciam o sumo sacerdócio.

Foi nesse ano que veio a palavra do Senhor a João, filho de Zacarias, no deserto. Ele percorreu toda a região próxima ao Jordão, pregando um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados. Como está escrito no livro das palavras de Isaías, o profeta: Voz que clama no deserto: Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele. 5 Todo vale será aterrado e todas as montanhas e colinas, niveladas. As estradas tortuosas serão endireitadas e os caminhos acidentados, aplanados. E toda a humanidade verá a salvação de Deus).

Nascido de uma mulher chamada Maria e vivendo num determinado lugar, chamado Galiléia, Jesus é uma pessoa histórica, numa época histórica. Assim, precisamos conhecer sua mensagem, sua prática, o que ele queria e o que ele fez.

A vida e a pratica de Jesus de Nazaré chegam até nós, hoje graças aos livros do Segundo Testamento. Eles preservam o testemunho de um grande número de pessoas que "ouviram, viram, contemplaram e apalparam" (1 Jo 1,1) Jesus de Nazaré. (O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida – porque a vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou – o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo. Escrevemo-vos estas coisas para que a vossa alegria seja completa (1Jo 1,4) Essas pessoas procuraram colocar por escrito a mensagem de Jesus, composta de palavras e de gestos eloqüentes. (esta atitude contribuiu para o Reino de Deus).

Entre os escritos do Segundo Testamento temos de destacar os quatro livrinhos chamados Evangelhos. Os Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João. Eles não são, e também não querem ser, uma biografia exaustiva de Jesus, contando detalhes, datas e acontecimentos da vida de Jesus de Nazaré. Eles foram escritos muito tempo depois dos acontecimentos, para gente que vivia fora da Palestina e, assim como nós, hoje, gente que não tinha conhecido o próprio Jesus.

Será, então, que por eles podemos conhecer, de fato, o que Jesus disse e fez? Será que a partir de apenas quatro livrinhos podemos escutar a voz de Jesus? Será que depois de tanto tempo e vivendo numa sociedade totalmente diferente, daquela em que Jesus viveu e trabalhou ele ainda nos diz alguma coisa? Como chegar a ele para melhor segui-lo?

O Primeiro sinal da presença de Jesus são as comunidades formadas por seus seguidores e seguidoras. As comunidades sempre serão sinais da presença viva e atuante de Jesus Ressuscitado. Elas formam um corpo único, que congrega pessoas no Espírito para testemunhar que Jesus de Nazaré continua vivo no meio de nós (1Cor 12,12-13). (Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo Espírito 1Cor 1,12-13)

Foi para melhor testemunhar a Vida plena em Jesus que as comunidades foram elaborando os Evangelhos que hoje temos no Segundo Testamento.

 

Para nos achegarmos a Jesus temos a leitura dos Evangelhos. Eles são como álbuns de fotografias enfocando alguns episódios da vida de Jesus, com estas fotografias podemos buscar os traços do Jesus histórico, o que ele fez, o que ele disse, as pessoas que escolheu e chamou, o que ele queria e o que aconteceu com ele. Com base nos Evangelhos podemos destacar alguns pontos que nos permitem reconstruir o caminho histórico de Jesus de Nazaré.

 

1 - Jesus viveu e cresceu no campo, numa pequena aldeia chamada Nazaré (Lc 1,26; 2,39; Jo 1,46). (No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. Lc 1,26-28) (Após terem observado tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galiléia, à sua cidade de Nazaré. O menino ia crescendo e se fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele.LC 2,39-40)(

Tudo o que ele sabia aprendeu com sua gente, seus parentes e vizinhos, numa vida de trabalhos manuais, na carpintaria e no campo. (Mc 6,1-6; Lc 4,16-30). (Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito (6l,1s) O Espírito do Senhor esta sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor. E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu este oráculo que vos acabais de ouvir. Todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que procediam da sua boca, e diziam: Não é este o filho de José?

Então lhes disse: Sem dúvida me citareis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; todas as maravilhas que fizeste em Cafarnaum, segundo ouvimos dizer, faze-o também aqui na tua pátria. E acrescentou: Em verdade vos digo: nenhum profeta é bem aceito na sua pátria. Em verdade vos digo: muitas viúvas haviam em Israel, no tempo de Elias, quando se fechou o céu por três anos e meio e houve grande fome por toda a terra; mas a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Serepta, na Sidônia. Igualmente havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu; mas nenhum deles foi limpo, senão o sírio Naamã.

A estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual estava construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo. (Ele, porém, passou por entre eles retirou-se Lc 4,16-30)

Em Nazaré ele cresceu, até o dia em que se manifestou a Israel. (Lc 1,80) (E no menino crescia e se fortalecia em espírito; e viveu no deserto,até aparecer publicamente a Israel Lc 1,80)

2 - Jesus deve ter recebido alguma instrução na Sinagoga de Nazaré, onde tinha o costume de fazer a leitura da Escritura (Lc 4,16). Mas nunca freqüentou uma faculdade ou fez estudos superiores. (Jo 7,15).

3 - Quando saiu de casa, foi participar do movimento profético popular liderado por João Batista, deixando-se batizar por ele. (Mc1,9). Nesse Movimento Profético, Jesus foi aprendendo com o povo e fazendo uma profunda experiência de Deus como Pai. Depois que João Batista foi preso, Jesus assumiu a liderança proclamando a Boa Nova da parte de Deus. (Mc 1,14)

(Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galiléia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia: Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho. Mc 1,14-15)

4 - Com essa pregação, Jesus se dirige e acolhe as "ovelhas perdidas da casa de Israel". Por ovelhas perdidas, Jesus entendia os marginalizados pelo sistema religioso de então: os pecadores, os pobres, os desprezados, os estrangeiros (Mc2,7;Mt 9,13). (“Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Vão aprender o que significa isto: Desejo misericórdia, não sacrifícios. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores” Mt 9,12-13).

Demonstrava uma preocupação especial pelos doentes, considerados impuros pela religião oficial. Jesus os acolhia e os curava (Mc 1,32-34). (Ao anoitecer, depois do pôr-do-sol, o povo levou a Jesus todos os doentes e os endemoninhados. Toda a cidade se reuniu à porta da casa, e Jesus curou muitos que sofriam de várias doenças. Também expulsou muitos demônios; não permitia, porem, que estes falassem, porque sabiam quem ele era Mc 1,32-34)

5 - O conteúdo principal da pregação de Jesus era o Reino de Deus (Mc 1,15;Mt 6,10).(O tempo é chegado, dizia ele. O reino de Deus está próximo. Arrependam e creiam nas boas novas! Mc 1,15) (Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu Mt 6,10).

O Reino se manifesta na remissão e no perdão total das dividas que afligiam os camponeses na Galiléia (Mt 6,12). (Perdoa as nossas dividas assim como perdoamos aos nossos devedores. Mt 6,12) Por isso mesmo Jesus valorizava a prática do perdão mútuo como sinal da misericórdia gratuita de Deus (Mt 18,21-35). (Parábola do servo impiedoso)

6 – Apontando a misericórdia como sinal da presença de Deus, Jesus entra em choque com a religião oficial, centrada nos sacrifícios e na observância da Lei. Retoma a pregação de Oséias dizendo que Deus prefere a misericórdia e não os sacrifícios (Os 6,6; Mt 9,13; 12,7). “Desejo misericórdia, não sacrifícios”. Com essa proposta, Jesus condena o culto no Templo de Jerusalém, sede da religião oficial (Mc 11,15-19; Jo 2,14-16).

7 – Sua pregação era feita segundo um método participativo, chamado “parábolas” (Mc 4,33-34). (Com muitas parábolas semelhantes Jesus lhes anunciava a palavra, tanto quanto podiam receber. Não lhes dizia nada sem usar alguma parábola. Quando, porém, estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo. Mc 4,33-34). 

Esse método mostra que Jesus não trazia uma doutrina pronta e acabada, mas queria que as pessoas descobrissem a presença de Deus a partir das coisas simples do dia-a-dia. Esse ensinamento parecia novo aos olhos do povo que, percebendo a coerência entre o que Jesus dizia e o que ele fazia, viam que Jesus ensinava com autoridade e não com poder, como os escribas (Mc 1,27) (Todos ficaram tão admirados que perguntavam uns aos outros: O que é isto? Um novo ensino – e com autoridade! Até aos espíritos imundos ele dá ordens, e eles lhe obedecem! Mc 1,27).

 

8 – Em seus ensinamentos Jesus condenou o abuso do poder (Mc 10,42-45). Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importantes entre vocês deverá ser servo; e que quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate a muitos. Mc 10,42-45)

O amor à riqueza (Mc 10,23; Mt 6,24), Jesus olhou ao seu redor e disse aos seus discípulos: Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus! (Mc 10,23) Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro. Mt 6,24).

A ganância (Lc 12,13-21) Alguém na multidão lhe disse: Mestre, dize a meu irmão que divida a herança comigo.

Respondeu Jesus: Homem, quem me designou juiz ou arbitro entre vocês? Então lhes disse: Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consisti na quantidade dos seus bens.

Então lhes contou esta parábola: A terra de certo homem rico produziu muito. Ele pensou consigo mesmo: O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita. Então disse: Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E direi a mim mesmo: Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se. Contudo, Deus lhe disse: Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, que ficará com o que você preparou? Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus. (Lc 12,13-21).

A violência (Mt 5,38-40). Vocês ouviram o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. Se alguém quiser processa-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.(Mt 38-40).

Sua proposta foi de um caminho de vida marcado por solidariedade (Lc 10,21-22), amor aos inimigos (Lc 6,27).

9 – Jesus não quis trabalhar sozinho. Seu primeiro gesto foi convocar pessoas para a missão (Mc 1,16-20). As discípulas e os discípulos que seguem Jesus são convidados para restaurar as pessoas subjugadas pela Lei e pelo culto alienante (Lc 9,1-6).  Jesus quer restaurar as casas, a comunidade familiar como lugar de convivência entre as pessoas e o próprio Deus (Mt 11,28-30). Apontando as casas como lugar privilegiado da manifestação de Deus, Jesus revela, assim, o rosto paternal e maternal de Deus entre as pessoas que se reúnem na solidariedade e na hospitalidade ao redor da mesa, partilhando os bens e a vida na perfeita alegria (Lc 5,28-29).

10 – Durante sua vida pública, andando e pregando, Jesus também soube manter-se unido a Deus numa vida orante. Seu contato com Deus exigia dele momentos de distanciamento, de solidão e de paz (Mc 1,35). Mas quando transbordava de alegria, Jesus entoava publicamente suas preces e seu louvor (Lc 10,21-24). Suas preces revelam sua intimidade orante com Deus revelado em seu rosto paternal. A oração do Pai-Nosso (Mt 6,9-13) aponta para um relacionamento íntimo com Deus, marcado pela simplicidade e entrega confiante.

Esse caminho, ensinado e adotado por Jesus, levou-o a um conflito com as autoridades políticas e religiosas de sua época. Os escribas, sacerdotes e líderes do povo, começaram a temer a enorme influência que Jesus passou a ter sobre o povo (Mc 3,22; 6,14;11,18; 12,12) Diante dessa crescente repressão, Jesus poderia ter fugido e preservado sua vida (Lc 13,31-33). Mas se fizesse isso, estaria traindo a Deus que lhe confiou a missão, e todas as pessoas que confiaram nele e em sua proposta, todos aqueles e aquelas que o seguiam, certos de que ele era o mensageiro da Boa Nova de Deus (Mc 6,33-34; Lc 8,1-3). Coerente até o fim e confiante na presença de Deus, Jesus vai para Jerusalém, onde é preso, julgado e condenado. Acusado de subversão política, Jesus morre na cruz (Mc 15-25-26), castigo reservado pelo império romano aos que se levantavam contra a política imperial chamada “Paz Romana”.

Mas um pequeno grupo de mulheres que o seguia desde a Galiléia (Mc 15,40-41) passou a afirmar que este Jesus cuja vida tinha sido uma unidade única com Deus tinha ressuscitado (Mc 16,1-18; Mt 28,1; Lc 24,1-10; Jo 20,1-11). Essa experiência da ressurreição significa afirmar que a morte não teve o poder de impedir que Jesus continuasse a viver. Essas mulheres receberam do próprio Jesus a ordenação de testemunhar essa vida nova com Deus, recriando a comunidade dispersa, enfrentando o descrédito e a confiança de todos. Inclusive de gente que tinha seguido Jesus (Lc 24,11).

Ressurreição é o grito teimoso dessas e de todas as pessoas que seguem os passos de Jesus e percebem que uma vida assim, tão humana e solidária, é vida vitoriosa! Essas pessoas congregadas em comunidades revelam o rosto de Deus. Até hoje!

 

Esta foi a missão de Jesus: viver a vida de uma maneira tão humana como só Deus pode ser humano. Por isso, cada uma, cada um é chamado a fazer esta experiência de vida com Deus a partir de Jesus de Nazaré. Somos chamados a testemunhar e a proclamar: Verdadeiramente, Jesus é o Filho de Deus!(Mc 15,39)

 

Ler Marcos 1,14-45 com a seguinte orientação:

 

a) Mc 1,16-20: A quem chama e para quê ?

b) Mc 1,21-22: Com você percebe a maneira como Jesus forma a consciência crítica do povo?

c) Mc 1,23-28: Numa palavra, como se expressa a missão de Jesus neste texto?

d) Mc 1,29-34: Que resultado produz a ação libertadora de Jesus?

e) Mc 1,35: Que nos diz o texto sobre a relação de Jesus com o Pai?

f)  Mc 1,36-39: Que indicam  os verbos neste contexto sobre a missão de Jesus?

g) Mc 1,40-45: O que faz Jesus em favor do marginalizado?