Jesus de Nazaré: o Cristo de nossa fé

Finalmente, e assim que os cristãos verdadeiros concebem e anunciam Jesus Cristo: Jesus é a presença e a ação de Deus em nossa história. Apesar de tratar-se de um paradoxo, (opinião contrária à comum) “escândalo para os pagãos e loucura para os judeus”, como bem expressou o apóstolo Paulo (cf. 1Cor 1,20-25), afirmar que Jesus de Nazaré, o crucificado, é o Senhor ressuscitado, o Cristo de nossa fé, significa, para nós cristãos, a sabedoria de Deus.

É exatamente este o núcleo central e específico de nossa fé cristã, que diferencia o cristianismo das demais religiões e que une todos os cristãos, sejam católicos, ortodoxos, evangélicos ou petencostais: cremos num homem que é Deus num crucificado, que ressuscitou. Se ele é Deus, já era Deus desde sempre. Assim, cremos também num Deus que se fez homem.  

Cremos num homem que amou até o fim (cf. Jo 13,1), que morreu na defesa da vida dos marginalizados. Nossa fé é confirmada pela ressurreição: aquele que tinha tanto amor para dar (cf. Jo l5,13), como Senhor da Vida (cf. Jo 10,18), veio trazer vida em abundância (cf. Jo 10,10) e por isso não poderia permanecer na morte. Tão humano assim, só sendo Deus!

O ressuscitado não caiu do céu, não é um mito, um ator teatral, mas alguém que morreu por uma causa, fiel a um projeto: o Reino que anunciou e iniciou. Este é o escândalo em que se baseia nossa fé: o crucificado é o ressuscitado, o ressuscitado é o crucificado, ou seja, este homem é Deus, este Deus fez-se homem.

Crucificado-ressuscitado, homem-Deus: uma identidade na contradição. Jesus de Nazaré, em suma, é o Cristo de nossa fé, nosso Salvador, senhor da história, é Jesus de Nazaré. O morto está vivo, este homem é verdadeiramente Deus.

 

Morte e ressurreição: centro da fé cristã

 

Nós cristãos afirmamos que Jesus morreu, mas também afirmamos que ele ressuscitou. A ressurreição é o mistério central de nossa fé. O mistério Pascal é o ponto de partida de nossa fé em Jesus Cristo.

Se Cristo não tivesse ressuscitado, não haveria fé cristã nem reflexão cristológica. A ressurreição de Cristo é a base de todo o cristianismo. Ao lermos o Segundo Testamento, principalmente os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos, percebemos que a notícia da ressurreição de Cristo causou espanto e alegria nos seus seguidores, bem como preocupação e reação nos poderosos da religião e da política da época. Com esta notícia, os discípulos do Senhor espalharam-se pelo mundo afora, conseguindo adeptos, formando comunidades, suscitando esperanças entre os povos oprimidos, instaurando novos projetos de vida, transformando sociedades.

Se Cristo não tivesse ressuscitado, ele teria sido apenas mais um crucificado como tantos outros, seriamos pessoas sem fé e sem esperança. Cruz sem ressurreição é sinal de morte, de fim, de desespero, de caminho fechado. O cristianismo não renuncia aos valores deste mundo. Anuncia a transformação desta vida e deste mundo.

 

          É para isso que serve a ressurreição de Jesus hoje:

Jesus não quis trabalhar sozinho. Seu primeiro gesto foi convocar pessoas para a missão (Mc1,16-20). As discípulas e os discípulos que seguem Jesus são convidados para restaurar as pessoas.  Jesus quer restaurar as casas, a comunidade familiar como lugar de convivência entre as pessoas e o próprio Deus (Mt 11,28-30). Apontando as casas como lugar privilegiado da manifestação de Deus, Jesus revela, assim, o rosto paternal e maternal de Deus entre as pessoas que se reúnem na solidariedade e na hospitalidade ao redor da mesa, partilhando os bens e a vida na perfeita alegria (Lc 5,28-29).

O ressuscitado foi vítima dos poderes religioso e político, foi um mártir das causas sociais, alguém estava do lado dos fracos e oprimidos. Ele havia anunciado um Reino de Deus diferente, de um Pai amoroso, próximo dos pecadores arrependidos, um pai que queria vida em abundância para todos.

“Aquele foi morto pelas mãos dos homens Deus o ressuscitou!’’(At 2,23-24 ). Quem ressuscitou não foi um mito ou uma idéia, foi uma pessoa. Uma pessoa que havia sido morta, excluída. A fé cristã se fundamenta em uma morte, no fim trágico de alguém que lutou pela vida. O ressuscitado é crucificado!

O centro de nossa fé deve ser o mistério da Páscoa –passagem da morte para a vida. A vida cristã é passagem: do egoísmo para a solidariedade, da indiferença para a participação, do ódio para o perdão, da divisão para a comunhão. O que aconteceu com Jesus deve acontecer conosco também.

A Páscoa de Jesus foi o ponto de partida para a Páscoa de seus seguidores. Eles o viam como alguém diferente, alguém que valia a pena seguir, alguém que tinha palavras de vida eterna.Ele era visto como um representante de Deus, um profeta, um messias. Acreditavam em Jesus, mais ainda não tinham uma fé clara, firme. Tanto é que quando ele foi preso, quase todos o abandonaram, até Pedro o negou. Uma fé explícita só se desenvolveu após a experiência pascal, com a vinda do Espírito Santo, quando sentiram que Jesus continuava vivo no meio deles. Aí, começaram a anunciar sua mensagem de salvação. Os discípulos fizeram também sua Páscoa: de uma fé implícita para uma fé explícita, do medo para a coragem pública e o anúncio do Cristo crucificado-ressuscitado.

Na Páscoa inicia-se todo trabalho de interpretação da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus. Na Páscoa tem início a cristologia. Percebemos, então, duas etapas distintas da vida do Mestre: a etapa da fraqueza( o modo humano e carnal, a vida terrena, o Jesus de Nazaré pré- pascal) e a etapa da plenitude ( o modo celestial e espiritual de existência, o Cristo da fé, o Jesus pós-pascal). A partir disso, surgiram duas orientações básicas da cristologia entre as primeiras comunidades cristãs:

1 – uma cristologia descendente, ou seja, que desce do mistério para a história, da divindade para a humanidade; trata-se do Verbo pré-existente,o mediador de toda a criação (cf. Jo1,1-14; Fp 2,6-11; Cl 1,15-20) ou o Cristo ressuscitado e glorificado (cf. Rm 6, 4-11; 1Co 15,20)

 

Apesar da humanidade de Jesus, existem pessoas e grupos dentro do cristianismo que insistem tanto na divindade de Jesus que terminam esquecendo-se de sua humanidade.

Estas pessoas e grupos enfatizam tanto os fatos extraordinários e miraculosos da vida de Jesus, a ponto de perderem de vista sua história concreta e real.

Na prática, tal concepção leva à negação da humanidade de Jesus, em franca contradição com os dados dos evangelhos. Desta maneira, fica em segundo plano ou às vezes completamente anuladas realidades bem concretas da existência humana de Jesus: as crises, tentações, angústias, o despertar para sua missão messiânica, os conflitos com os poderosos políticos e religiosos de sua época, o tomar partido dos pequenos e pobres, as dores, o grito de abandono e sua morte de cruz

      

2 – uma cristologia ascendente, ou seja, que sobe da história para o mistério, da humanidade para a divindade; trata-se do Jesus terrestre.

Entretanto, apesar dos diferentes enfoques, todas as comunidades partem da fé na ressurreição daquele Jesus que foi morto na cruz. O mistério pascal une as duas orientações cristológicas. No Segundo Testamento não há ruptura entre o Jesus terrestre e o Cristo glorificado

 

Reflexão: de forma poderá acontecer a ressurreição na minha vida?